Como escreve Lua Valentia


Entrevista por José Nunes


Lua Valentia é bruxa e escritora, co-criadora do Specula, um site sobre arte, magia e bruxaria.


Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal?

A verdade é que muitas vezes acordo quando já está anoitecendo, pois sou naturalmente crepuscular. Cá entre nós, eu sou de fato caótica, então eu não tenho uma rotina específica, além do trabalho e dos rituais de bruxaria que faço diariamente. Basicamente trabalho lendo, traduzindo, escrevendo e produzindo conteúdo para internet, visto que sou estrategista de redes sociais para uma editora de livros ocultistas. Eu tenho algumas outras fontes de renda, mas de qualquer forma, o trabalho principal envolve escrita e estou feliz com isso. Eu não tenho dia de folga, tenho momentos de ócio criativo durante o dia. Como trabalho em casa, tento me adaptar aos compromissos extras que aparecem. Sofro com a burocracia e o fato de que o comércio, de forma geral, começa a fechar quando estou acordando. (risos) Ainda bem que hoje em dia podemos resolver quase tudo pela internet! A verdade é que não tenho uma rotina matinal. Porém, os dias contém os mesmos elementos. Além de praticar bruxaria, eu jogo xadrez… Jogar xadrez é como praticar um ritual, o que me ajuda a enxergar o mundo de maneira mais lógica e pragmática.


Em que hora do dia você sente que trabalha melhor? Você tem algum ritual de preparação para a escrita?

Eu trabalho melhor de madrugada porque não tem barulho. Eu sou fascinada com o silêncio. Não tem telefone tocando, as redes sociais estão bem mais tranquilas, então as pessoas não me pedem tanta atenção. Meu ritual para escrever consiste em tomar banhos em certos intervalos, pois a água me inspira e eu me sinto renovada. Eu também procuro me manter hidratada. Ah, claro, costumo beber muito café e organizar a minha mesa, que por algum motivo sempre termina bagunçada.


Você escreve um pouco todos os dias ou em períodos concentrados? Você tem uma meta de escrita diária?

Escrevo todos os dias. Minha meta é escrever até a exaustão ou quando a inspiração acabar. É óbvio que existem períodos em que estou muito mais concentrada, a escrita flui mais naturalmente. De maneira geral, eu vou escrevendo, não importa exatamente qual o conteúdo. Nem sempre mantenho uma linearidade. Quando eu vejo, tenho um livro praticamente pronto, que só precisa ser costurado. Eu só paro de escrever nos dias em que tenho que tornar a ideia um produto: então eu me dedico inteiramente a diagramar o livro e deixá-lo esteticamente bonito, pois isso também é importante. Basicamente faço todas as etapas: escrevo, diagramo, publico e faço a propaganda. Mas deixo para o Clube de Autores o processo da impressão e da entrega. É mais fácil assim.


Como é o seu processo de escrita? Uma vez que você compilou notas suficientes, é difícil começar? Como você se move da pesquisa para a escrita?

O meu maior desafio até o presente momento foi lançar o Neon Lights, meu primeiro livro inteiramente em inglês. São poesias minhas, nem todas inéditas, muitas das quais foram musicalizadas para a minha banda Caotes. Foi difícil porque inglês não é a minha língua materna. Mesmo assim, teve uma recepção muito calorosa. Não esperava tantos comentários positivos de nativos da língua. Eu também tive muita ajuda para a revisão. Mas o processo de escrita em si foi curioso. Eu gosto de usar as redes sociais como ferramentas, então publiquei tudo primeiro no Twitter. Depois apaguei os poemas, é claro, mas eu gostei da interação. Eu geralmente escrevo muitas notas nas redes sociais, observo a interação do público, depois pego tudo que escrevi e costuro o livro completo no final. Até agora foram três livros poéticos, um livro de relatos e um grimório de Magia do Caos.


Como você lida com as travas da escrita, como a procrastinação, o medo de não corresponder às expectativas e a ansiedade de trabalhar em projetos longos?

Quando eu começo a escrever para as pessoas e não porque eu preciso, eu sinto que há algo de muito errado, pois eu penso como o leitor, eu já sinto o julgamento, e isso me trava. Então eu escrevo porque eu gostaria de ler aquilo, porque eu preciso, porque esta é a minha Verdadeira Vontade.

Coloquei uma meta geral de que irei publicar pelo menos 54 livros em 7 anos. Todos estes livros terão algo em comum, algo místico que os liga uns aos outros. Não importa o tema, eles serão interligados. Então eu penso nesta meta quando eu me sinto travada. Às vezes sei que serei julgada, que minha escrita é muito controversa, afinal eu trato de temas tabus como drogas, sexo e bruxaria. E o que mais dói não é quando a crítica é feita de forma direta. Mas, enfim, eu tenho uma frase de poder, então quando estou mal, eu sussurro: “Amor Vincit Omnia”, que basicamente significa que o amor vence todas as coisas. E quando você faz o que ama, consegue superar os obstáculos com maior facilidade.


Quantas vezes você revisa seus textos antes de sentir que eles estão prontos? Você mostra seus trabalhos para outras pessoas antes de publicá-los?

Meus textos nunca estão prontos. Nunca! Eu sinto que irei revisá-los para sempre até o dia da minha morte. Mas isso não pode se tornar um impedimento para que eu publique meus livros. Então eu já sei que terão erros de digitação, de descuido, mesmo que eu tenha lido fixamente cada linha. Isso acontece porque quando relemos muito a mesma coisa, a escrita já está viciada. De certa forma estou sempre mostrando meus trabalhos, porque, como eu disse, eu vou publicando partes deles nas redes sociais. Eu não ligo mais para a perfeição do material final. O importante é completar o projeto. Vi gente enlouquecer porque não era perfeita o suficiente, queria tudo idealizado, não aceitava uma linha fora do lugar. Nunca conseguiu publicar um livro. Não quero isso para minha vida: ficar estagnada por medo do fracasso. Por isso, eu faço o que precisa ser feito, sem desculpas.


Como é sua relação com a tecnologia? Você escreve seus primeiros rascunhos à mão ou no computador?

Eu gosto muito da estética vintage, então tenho uma máquina de escrever. Mas também sou muito tecnológica. Como eu disse, uso as redes sociais a meu favor. Hoje em dia, o Facebook permite que você publique textos grandes em duas línguas diferentes. Isso me ajudou muito a melhorar minhas habilidades como tradutora. Se tiver que escrever pelo smartphone, eu o farei sem problemas. Mas eu prefiro mesmo me sentar com um belo de um café ao meu lado e escrever pelo computador.


De onde vêm suas ideias? Há um conjunto de hábitos que você cultiva para se manter criativa?

Eu trabalho numa editora de livros, então mantenho o hábito da leitura religiosamente. Além disso, gosto de assistir a filmes e séries. Mas definitivamente a minha maior inspiração vem do universo onírico. A base do meu livro mais vendido, Tecnomago, veio inteira dos meus sonhos. Eu mantenho um caderno de sonhos sempre por perto da minha cama. E se eu sonhar com algo interessante, a primeira coisa que faço é escrever sobre isso assim que acordo. Os Oneiros mantêm a minha criatividade afiada, de modo que nem perco muito tempo imaginando. Tudo que eu preciso escrever já está lá, em algum lugar, só preciso fechar meus olhos.


O que você acha que mudou no seu processo de escrita ao longo dos anos? O que você diria a si mesma se pudesse voltar no começo?

A internet salvou a minha vida e deu espaço para a realização da minha Verdadeira Vontade. Quando eu era bem jovem, eu achava que seria impossível publicar um livro, pois tudo dependia de uma editora. Então passei a estudar todo o processo de publicação, vi que era bobagem minha depender de terceiros apenas por uma questão de status. Eu poderia fazer tudo aquilo. Mesmo que não fosse perfeito, eu teria minha obra no final, e só dependeria do meu esforço, não de indicações ou da sorte. Criei a minha própria base de leitores, aos quais sou intensamente grata. Não há nada melhor que receber um abraço verdadeiro de alguém que se identificou com sua obra. Portanto, eu diria para aquela garotinha não temer, para guardar cada linha num lugar seguro, pois computadores quebram, manuscritos são roubados e rasgados. Eu manteria uma base melhor da minha obra, teria começado bem mais cedo. Mas eu ainda sou nova, tenho 27 anos! E terei ainda mais 7 anos de intensa produção pela frente. Não posso mudar o passado, todos os arquivos que perdi por erros de memória ou de distração, tudo que eu joguei fora por me achar incompetente. Então eu diria: continue estudando, se esforçando, criando. Um dia você terá uma visão holística da sua produção e tudo será bem mais fácil. Esqueça os conselhos de quem só busca status: sejam eles financeiros ou literários. O desafio agora é manter o foco no futuro, guardar tudo que escrevo, por mais tolo que me pareça, e tentar criar uma base sólida, cada vez melhor através dos anos. Além disso, expandir a minha base de leitores, pois são eles que sustentam este sonho.


Que projeto você gostaria de fazer, mas ainda não começou? Que livro você gostaria de ler e ele ainda não existe?

Quero ainda lançar histórias em quadrinhos em parceria com amigos ilustradores. Também desejo transformar alguns escritos em roteiros para filmes. Estou pensando em criar uma história sobre uma robô que era mantida como escrava sexual, mas que se vinga da humanidade de alguma forma e ainda por cima consegue salvar a biosfera do colapso total. Sei que há muitos filmes e livros com este tema, mas quero dar meu toque pessoal a esta “final girl”. Tudo que envolve tecnologia, ocultismo e que tenha uma estética vintage me atrai, especialmente se for algo noir, extremamente sedutor. Adoro consumir este tipo de conteúdo e creio que esta é a base de tudo que eu faço.

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© 2020 por Lua Valentia

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